Muitas vezes, durante as palestras, debates e discussões sobre Direitos Animais de que participo, ouço a afirmação de que o veganismo seria uma atitude antropocêntrica. Isso porque a pessoa que o pratica “se preocupa apenas com o que é semelhante a ela”, ou seja, o animal não humano. A semelhança seria a forma como este reage a estímulos que nós, animais humanos, reconhecemos como dolorosos. Ou seja, a pessoa vegana só respeita o animal porque “humaniza” o não humano, atribuindo a ele “características humanas”. O objetivo desse texto é discutir a essa questão a partir da retomada de alguns pontos.

O atraso da causa

A causa dos Direitos Animais é uma das mais atrasadas. O especismo é o único tipo de discriminação que ainda tem apoio total do Estado e do senso comum. Os animais são considerados propriedade perante a lei e são culturalmente excluídos de nossa comunidade moral. Não existem barreiras para nossas ações com os animais porque seus interesses não são considerados. Isso significa que são objetos que podem ser comprados, vendidos, manipulados como bem entender seu proprietário, pois não são considerados sujeitos que têm valor intrínseco.

Esse atraso que se encontra enraizado em nossa cultura, nossa sociedade, nossa mentalidade e visível em nossas ações é também responsável pela dificuldade que temos de enxergar os animas como detentores de interesses e direitos.

Comunidade moral

Desde que temos consciência de nossas ações e suas conseqüências em comunidade, tentamos estruturar acordos e normas que as julguem e regulem. Fazemos isso por levar em consideração os demais indivíduos atingidos por essas ações. Tais acordos e normas que colocamos em prática constituem a moral.

Imagine que eu vivo em uma comunidade, tenho consciência de que não posso causar dor em outro humano sem seu consentimento apenas porque eu me divertiria com isso. Pois considero seu interesse em não sentir dor, e sei que meu interesse em me divertir com seu sofrimento não se sobrepõe a isso. E o outro, segundo os mesmos preceitos pensa o mesmo de mim. Logo, nos consideramos como membros de uma comunidade moral.

Agora, suponhamos que eu seja vegano. Minha prática também considera o interesse dos animais em não sentir dor. Então, eu não prenderia uma animal e o obrigaria a fazer números de circo apenas por que isso me diverte. Tampouco o mataria porque aprecio o sabor de sua carne assada. Porque sei que seu interesse em viver livre e não ser assassinado é mais importante, do ponto de vista moral, do que o meu interesse em vê-lo andando sobre uma bola, em pedaços na minha panela ou preso e drogado para me fornecer seu leite.

No entanto, sei que se eu me encontrar com um leopardo faminto em uma savana, ele não pensará duas vezes antes de me atacar e me matar para comer. Afinal, o leopardo não divide comigo uma mesma base normativa para suas ações – o que não muda minha postura em relação a ele. Mas o leopardo e os demais animais carnívoros não são os únicos. Muitos seres humanos com sérios problemas cognitivos não conseguem compreender nossos códigos morais e são capazes de me atacar com intenções tão mortais quanto as do leopardo. Nem por isso eu consideraria matá-los para comer ou cortá-los vivos com um bisturi em uma aula de medicina para que os alunos vejam ao vivo como bate um coração humano.

Ou seja, uma comunidade moral é o nome que damos ao grupo de indivíduos que partilham uma mesma base normativa e prática para suas ações. No entanto, alguns indivíduos devem ser enquadrados por essa comunidade mesmo que sua prática não seja fundamentada nas mesmas normas. Assim, mesmo que eles não respeitem-nos segundos nossas normas, nós devemos respeitá-los. A justificativa para isso é que reconhecemos esses seres como detentores de direitos, devido ao seus interesses em não sentirem dor, em não serem aprisionados, em não serem assassinados. Tais interesses podem ser protegidos por um direito básico: o de não ser propriedade de outros.

Comunidade pressupõe que há algo em comum. Mas qualquer coisa? Não basta simplesmente ter algo em comum para que enquadremos um ser em nossa comunidade moral. Se assim fosse, seria impossível determinar nossos limites morais. Compartilhamos semelhanças com todas as formas de vida do planeta. No entanto, escolhemos a senciência apenas porque ela impõe um limite para nossas ações, uma vez que implica interesses. E interesses demandam igual consideração.

A argumentação especista exclui arbitrariamente certos indivíduos da nossa comunidade moral apenas pelo fato de serem de outra espécie. É, portanto, falacioso uma vez que nega a existência de interesses em seres dotados das mesmas estruturas que nos permitem conferir interesses a humanos.

Senciência e antropocentrismo

Retomamos a pergunta: há algum antropocentrismo nisso? A dúvida é pertinente e é de certa forma lógica. Respeitar animais não humanos por serem capazes de sentir dor pode soar como antropocêntrico uma vez que julgamos “sentir dor” como um atributo humano. Nada pode estar mais equivocado. Dor é uma característica evolutiva que permite que o indivíduo perceba caso seu corpo seja violado, e assim reagir à violação. É, portanto, fundamental para a sobrevivência. Sentir dor é um atributo dos seres sencientes, ou seja os animais – tanto humanos quanto não humanos.

A senciência é a capacidade de sentir emoções, como dor e prazer. Julgá-la como uma característica humana constitui o verdadeiro antropocentrismo. O ser humano não é o único capaz de sentir e de ter interesse em prolongar as sensações agradáveis e evitar as desagradáveis. O fato de dividirmos a senciência com os animais não humanos, não faz dela uma característica humana. É uma característica animal. Nesse caso, seria mais correto dizer que estamos animalizando o ser humano e não humanizando o animal. Do contrário, deveríamos nos perguntar também se há algum racismo em se opor a escravidão de afrodescendentes, ou se há algum sexismo em se opor a discriminação da mulher.

Estamos acostumados à educação que nos ensina uma moralidade limitada a reafirmar dogmas e práticas preestabelecidas ao invés de construir um aparato para julgar livremente nossas ações através de um questionamento ético. O que está preestabelecido no que tange nossas relações com os animais já é bem conhecido. Importa agora é se vamos nos desapegar do conformismo conveniente e de fato repensar de forma ética essas relações, no âmbito de uma melhor educação que permita o livre questionamento no lugar da eterna reafirmação de antigas verdades.

por: Renato Corrêa

email: pinteba@hotmail.com

3 Responses to “Veganismo versus antropocentrismo”
  1. kinara ccaputty gluster says:

    eu gosto de pipas

  2. Lu says:

    Eu estou absolutamente de acordo com as conclusões deste texto.É dessa forma que sempre quis explicar o que penso.Mas infelizmente não tinha conseguido expressar verbalmente de forma tão brilhante porque não concordo em machucar e tirar qualquer vida.Aliás,que não tenho que concordar ou não,o direito à vida é intríseco.Quem escreveu este texto????

  3. Renato Correa says:

    Oi Lu, fui eu quem escreveu esse texto. Vou mandar um email para vc se quiser conversar mais sobre isso.

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